Setembro - 2018
STQQSSD
     12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930



» Matérias «


Taekwondo no Rio de Janeiro

Taekwondo no Rio de Janeiro
Aspectos do Taekwondo no Rio e Janeiro

Uma história baseada nos relatos de ícones de nosso Estado
“Eu vou deixar em dia a vida e a minha energia...”
(Hermes de Aquino, década de 70)

O objetivo é resgatar a história do Rio de Janeiro através da lembrança daqueles que viveram um tempo diferente e guardaram na bagagem diversas experiências. Nas linhas abaixo compartilharemos do imaginário de décadas anteriores através das contribuições de faixas-pretas: atores da historiografia marcial.
Evidente que muitos atletas e profissionais de nossa área contribuíram para o crescimento da modalidade. Difícil apontar, aqui nestas linhas, todos os que formaram a coluna vertebral do Taekwondo quando introduzido no Brasil. Porém, grandes personagens do Taekwondo como Rodney Américo dos Reis, João Henrique Sobrinho, Reinaldo Evangelista117, Hélio de Mello, dentre muitos de sua época até a atualidade, viveram a década de setenta e continuam contribuintes do Taekwondo, ou seja, estão na ativa.
O Grão Mestre Teófanes, 7º Dan WTF, nos revela que na sua época havia muita disposição para a luta e que precisavam mostrar o potencial do Taekwondo para os brasileiros, por ser uma luta nova. Muitas vezes foram desafiados por lutadores de Karatê “Muitas vezes éramos desafiados pelos praticantes de Karatê. Mostrávamos o que tínhamos aprendido”. Seu grupo sempre foi unido nos treinamentos e desafios, estavam sempre confiantes devido ao bom treinamento e amizade. Entretanto, relata que nunca houve agressividade por parte dos praticantes de Taekwondo “Havia rixa, nos ringues de luta e disputa por namoradinhas que gostavam de namorar os novos campeões”. Além de tudo, o Jiu Jitsu também participava de confrontos, invadiam academias para se firmarem na nova arte, mas sem muita repercussão.
Segundo o Sabumnin Edimir Kawakubo, V Dan ITF, que iniciou no Taekwondo em 1982, relata nomes importantes entre os brasileiros: Rodney Américo (ligado ao mestre Woo Jae Lee), João Henrique Sobrinho (ligado ao mestre Woo Jae Lee); entre os coreanos: Yong Min Kim, Jung Roul Kim, Nam Ho Lee e Sin Hwa Lee. Conta-nos também sobre Hélio de Mello, hoje grão mestre 7º Dan WTF, que derrotou muitos capoeiristas que o desafiavam. Mas, se tratando do grupo de Kawakubo, não havia muitas rixas, pois Woo Jae Lee sempre foi eticamente e moralmente corretíssimo, não aceitava tais atitudes de seus alunos.
Mestre Marcus Resende, 6º Dan WTF, conta que nas décadas de 80 e 90 todos os atletas, com raras exceções, sofreram grande influência da filosofia marcial, e que três mestres cariocas, Yong Min Kim, Nam Ho Lee e Jung Roul Kim conseguiram embutir nos cariocas uma refinada técnica marcial, garra, raça, firmeza em combates “Alguns atletas como eu, Carlos Fernandes, Luiz Octávio Domingues, Alexandre Barbosa Lima, Milcley Mattos, Marcos Rodrigues, Juacy Mendes, buscávamos a atualização da arte marcial que se transformava em desporto, sem negligenciar dos conceitos marciais. Carlos Fernandes foi o mais vitorioso de todos e quem mais fez intercâmbio internacional entre 85 e 91”. A partir de 2000 muito mudou principalmente pela maior navegação na internet e do fácil acesso a materiais escritos, vídeos competitivos e explicativos, assim como pela entrada do Taekwondo nas Olimpíadas, que o fez ser reconhecido por todo o Brasil. “O Modo de lutar de paulistas, cariocas, mineiros, gaúchos e paranaenses era muito parecido. O que prevalecia era o aspecto tático, sobretudo o desenvolvido por atletas paulistas e paranaenses”.
Em 1974, na Praia Vermelha, Mestre Carmelino de Souza Vieira118 conhecia o Taekwondo em uma demonstração através do Mestre Woo Jae Lee, onde a modalidade era representada
pela Confederação Brasileira de Pugilismo (CBP). Chegou a Coordenador Técnico. Em seguida, conta que foi para Campos com Woo Jae Lee, enquanto que Yong Min Kim administrava a academia de Botafogo, na Rua Voluntários da Pátria. “Nós participávamos de algumas demonstrações, de campeonatos (...) Aquele era meu grupo: Rodney, Bob (irmão do Rodney), Bento, Ivan Varela (um dos primeiros do Taekwondo) (...) esse grupo era mesmo o primeiro time.”
Mestre Carmelino não esquece também de apontar outros grandes ícones como Nélio, Park, Chang Seon Lim e Flávio Molina “Lembro de Nilo, um grandalhão que tinha uma academia no Largo Machado (...) Ele brigava sempre com o Molina. Os dois se atracavam, saiam em brigas homéricas. Isso em luta, claro”. Seu relato vai além quando relembra que Molina adorava briga de rua, pois era bom capoeirista. Como lutador da arte entrava nas rodas e batia de verdade, assim como no Taekwondo que girava com ginga, se esquivava, batia para machucar119.
Nas décadas de 70 e 80 o Rio de Janeiro aproximou-se da cultura oriental com as massagens, origamis e Arte Marcial, onde a última foi inserida nas academias as quais ensinavam outras modalidades marciais. Algumas academias, na época, eram fiéis à modalidade ensinada como, por exemplo, Academia Faixa Preta (1972), na Tijuca. Modelo para duas vias, a primeira pelo modelo marcial Taekwondo e o que representa. A segunda via está pelo período de existência. Iniciou com o Taekwondo em um primeiro momento, em um segundo mesclou outras modalidades de artes marciais. Talvez o Taekwondo tenha entrado em um novo ciclo.
Segundo o Mestre carioca Rodney Américo dos Reis, 5º Dan WTF, o primeiro faixa-preta do Brasil, os protetores de bambu faziam muito barulho “Naquela época ainda não usávamos protetores em campeonato. Mais tarde foi introduzido o protetor de bambu que fazia um barulho danado, quando acertávamos um chute certeiro.”. Relata também que na retirada do Mestre Woo Jae Lee do Estado do Rio de Janeiro, deixou o Mestre João Henrique Sobrinho (um dos mais antigos) cuidando dos exames de faixas coloridas e faixas pretas após realizar uma reunião. Ao
chegar o Mestre Yong Min Kim no Brasil, os exames começaram a ser feitos em conjunto, e somente foram separados após a mudança técnica (kukkiwon). “Eram cerca de cinquenta alunos por turma entre os anos de 1973 e 1990, quinhentos alunos por exame e duzentos e cinqüenta alunos que eu levava.”. A propaganda na época era “Seja também um demônio voador!”
Em sua época o Taekwondo era conhecido como “Taekwondo Arte” que atacava das mais diferentes formas para serem lutadores perigosos e que os adversários não se acostumassem ao que fosse fazer. O treino era diversificado e constante: defesas de mãos e de pés, esquivas, bandas e rasteiras (por trás, pela frente, pelos lados). Os ataques de mãos eram enfatizados, diferente da atualidade “Treinávamos inúmeras vezes até a exaustão: o maior numero de socos e chutes com ou sem pulo para dominarmos uma técnica variada.” Cita também que o 1º campeonato entre estados foi realizado em 1975 em Brasília e a equipe do Rio foi a campeã Segundo as lembranças do Mestre Rodney, segue os lutadores do passado: Sobrinho, Caroço, André, Carlinhos (M. J. R. Kim), Nélio (M.Lee), Nilo (M.Lee), Nelson Pissini (Rodney), Marcio e Ivan Atherino (Rodney), Manoel da Ilha (M.Lee), André (prof. Manoel/Rodney), Flavio Molina (M.Kim), David Noguchi (M.Lee), Flavio Black (M.Lee/Rodney), Baiano (M. Kim), Gabriel (Prof.André), Santos e seu irmão Gerson (M. Lee), Marcelino de Campos (M.Lee), Paulinho Valadão (Rodney), Julio (M.Rodney), Leonardo(M. Rodney), Saul (M. Rodney) Salvador (M.Rodney), Sandoval (M.Kim), Milcley, Joao Henrique (M.Lee), Helio de Melo (J. Henrique), Alexandre (Marinho), Alan Luxardo (Marinho), Portela (M.J.R.kim), Silva (M.J.R.Kim), Cesar (M.J.R. Kim) Zito (M. Nam Ho Lee), Eduardo Barreto (Bob), Luis Paulo (Bob), Ronaldo (Bob), Susu (M. Rodney) Oldemar (M.Kim), Varela (M.Lee), Bento (M.Lee), Paulo Sergio Gomes (M.Kim), Pelé (M.Lee/Kim), Pimpolho(M.Kim), Rodney (M.J.R.kim), Oliveira (M.Kim) Marcus Rezende e outros, aos quais peço desculpas por não me lembrar no momento, mas que também brilharam nos dojans e merecem todo o nosso respeito e admiração, pois serviram de exemplo para outras gerações.).
Mestre Jadir Fialho 5º Dan relata que iniciou o Taekwondo aos oito anos com Ivan Varela, um dos primeiros no Rio de Janeiro e dissidente do Karate. Ivan Varela fundou a Associação Fluminense de Taekwondo e foi o responsável pelo projeto no Corpo de Bombeiros Campinho em sua época: “Na época, quando iniciei, eles davam almoço. Minha família passava dificuldades, meu pai era operário. O precursor de projetos sociais no Rio de Janeiro foi Ivan Varela e Carlos de Deus.”. Lembra também dos doboks de gabardine acetinado que em duas horas estavam secos, além do seu primeiro que era de saco de padaria (ou farinha). Revela que os campeonatos fluminenses eram absolutos, não tinham categorias de peso, mas com certo limite em relação a graduação.
Mestre Jadir Fialho, 5º Dan WTF, e atual Coordenador Técnico da CBTKD, relata que iniciou o Taekwondo aos oito anos com Ivan Varela, um dos primeiros no Rio de Janeiro e dissidente do Karate. Ivan Varela fundou a Associação Fluminense de Taekwondo, foi o responsável pelo projeto no Corpo de Bombeiros Campinho e ministrava aulas com o Professor Carlos de Deus: “Na época, quando iniciei, eles davam almoço. Minha família passava dificuldades. O precursor de projetos sociais no Rio de Janeiro foi Ivan Varela e Carlos de Deus.”. Lembra também dos doboks de gabardine acetinado que em duas horas estavam secos e dos campeonatos fluminenses que no início eram absolutos, não tinham categorias de peso, mas com certo limite em relação a graduação. Mestre Jadir nos descreve como Varela era dedicado, ao ponto de agendar mensalmente, na baixada fluminense, demonstrações em escolas, faculdades e quartéis. Realizava tui yop chagi por dentro de um bambolê pegando fogo, era o seu grand finale. “Ele ia de escola em escola. Varias escolas em um mês com quatro ou seis atletas. Quebramento de mão, luta e saltos. Na baixada fluminense é o pai do Taekwondo.”. O impacto destas demonstrações nas pessoas era notório, pois naquela época os filmes de Bruce Lee estavam em voga. Lembra também dos principais precursores: na zona sul Mestre Yong Ming Kim e Mestre Woo Jae Lee; Mestre Nam Ho Lee no Méier e Campo Grande e Ivan Varela no subúrbio do Rio de Janeiro. “Você pode abrir o livro, aquele do Mestre Woo Jae Lee: Aprenda Taekwondo. No 5ºgub tem uma foto de um professor dando um tui dollyo chagi. Este é o Varela arrancando uma maça na cabeça, naquela foto está de bigode. Na minha opinião, ele foi um dos maiores propagadores do Taekwondo no Rio de Janeiro.” Varela ensinava na Academia Flores de Nilópolis, fazia rodízio de luta com professores convidados de varias modalidades: Boxer, Karate, Kung Fu, dentre outras. Focava o Taekwondo marcial e os calejamentos.
Por fim, nos conta a impressionante história de como o Taekwondo do Rio de Janeiro pode modificar a vida de todos “Em 2000 implantei um trabalho socioeducativo em meio aberto e havia um garoto, em uma determinada escola, que afrontava os professores por conta da sua relação com pessoas do tráfico.
Por ocasião, descobriu o Taekwondo, se identificou e logo tornou-se Campeão Carioca, lém de conseguir ser o aluno com melhor rendimento em sua turma: se tornou um exemplo. Para mim o Taekwondo contribui para a construção dos valores e é uma excelente ferramenta para prevenção.”
Notoriamente muito mudou com o final da Academia Faixa Preta e o início da Academia Tanchien, a qual continuou o trabalho da primeira e abriu oportunidade para diversas modalidades marciais, pois Academia Faixa Preta mantinha o Kung Fu com os Professores “Fome” e Rangel (Garra de Águia)120, e depois Marcos Vinícius (Hung Gar). Entretanto, como as “Artes Marciais” estavam em declínio, e até mesmo o Taekwondo não tinha muita força por existirem muitos grupos distintos, a Tanchien como empresa, precisou modificar o cenário para manter-se no mercado incluindo posteriormente danças, musculação, etc.
“A Academia Faixa Preta realmente foi o símbolo do Taekwondo no Rio de Janeiro e da Tijuca, sempre considerada a melhor em sua época, vivia lotada e cheia de campeões, assim como os diversos troféus e quadros pelas paredes. Naquele momento podia ver a dedicação nos rostos de todos e na confiança e respeito ao mestre. O símbolo gravado na parede mantinha o respeito e significava o brasão de um grupo, o brasão do Taekwondo. O leão impunha o respeito e o único palavrão era “caraca”, nenhum mais. Ninguém reclamava do calor e por não ter ar condicionado e nem do carpete no chão, das bolhas que surgiam para que os calos pudessem aparecer e proteger os pés; o saco de boxe pesado e duro preso na parede por um grande “ele” envergado com o peso; os treinos fortes sem protetores, onde somente o mestre dava auxílio em momentos que os primeiros socorros orientais e também ocidentais precisavam ser utilizados; os chutes voadores praticados em todas as aulas; uso com pesos no tornozelo e na cintura; as técnicas de defesa pessoal contra baionetas e os treinos com armas; as abdominais com socos no abdome e as flexões que só poderiam ser realizadas com as mãos fechadas, o cumprimento de joelhos que também era feito com as mãos fechadas; as faixas não eram pedidas pelos alunos que queriam se graduar rapidamente, pois tinham a humildade de saber esperar e ser apontado pelo mestre e não era necessário ensinar o aluno a cumprimentar para entrar e sair da sala de treino, pois todos faziam isso ao ver os mais graduados. Era uma época onde havia verdadeiro respeito por uma cultura, uma cultura marcial que hoje declinou para dar lugar a competitividade que não acompanhou a filosofia da nossa arte. Claro que muito do que vivíamos foi condenado e modificado para que no futuro tenhamos a nossa atualidade condenada e modificada por mais uma vez, ou seja, sempre haverá ganhos e perdas com a ideia de avançar e melhorar.” (Roberto Cardia)

117 Conhecido como Pelé.
118 Também faixa-preta de Karatê e Judô.
119 Molina era policial e faleceu em um salvamento quando conseguiu resgatar uma pessoa de um abismo.
120 Professores do autor.

Enviado em 18 de abril de 2013 por Roberto Cardia autor do livro "Taekwondo, Arte Marcial e Cultura Coreana".



 
BANG .:. Desde 1971 no Brasil .:. Tradição & Qualidade